Quinta, 12 de Dezembro de 2019   
Artigo Original

20/8/2003
Paciente Especial: Condicionamento na Odontologia
Roberto ELIAS* - Carmen ELIAS**
CISPRE

Resumo

Os autores descrevem métodos junto ao paciente com necessidades especiais, sob o aspecto psicológico no tratamento odontológico, na sua prática diária, como método alternativo para pacientes de difícil de controle.

Unitermos:condicionamento, paciente especial, modificação comportamental

Abstract

This author's describes methods close to the special patient, under the psychological aspect in the treatment odontológico, in her daily practice, as alternative method for patient special of difficult control.

Key-words: psychological aspects, handicapped patient, behavior modification.

* Presidente CISPRE
** Coordenadora Geral CISPRE

1. INTRODUÇÃO

Estamos vivendo em um período na historia da humanidade, na qual os avanços na área da medicina são freqüentes. Na última década, avanços nos recursos diagnósticos, diretrizes de assistência à saúde e técnicas cirúrgicas têm possibilitado que mais e mais crianças e adultos não apenas sobrevivam, atingindo longevidade, obtendo uma melhora na qualidade de vida. Não poderia deixar de acoplar a essa melhoria a qualidade de atendimento preventivo e curativo na estomatologia.

A saúde bucal perfeita em controle sempre é importante para o bem estar físico dos pacientes clinicamente comprometidos (Pacientes com Necessidades Especiais) contribuindo para o sucesso de uma melhora na qualidade de vida.

Por muitas vezes o cirurgião-dentista fazendo parte de um contexto interdisciplinar se vê as voltas com pacientes que estão longe de uma cooperação mesma que mínima, no que se refere ao tratamento odontológico a nível ambulatorial.

Segundo MAIA et al. (1996)(7) a responsabilidade do profissional de odontologia neste aspecto de condicionamento é grande: ele tem um papel importante na educação dos pacientes jovens e deveria ajuda-los a lidar com suas ansiedades, ajustando-as ao nível apropriado para cada paciente e a cada situação.

2. CONSIDERAÇÕES COMPORTAMENTAIS JUNTO AO PACIENTE ESPECIAL

ELIAS (1995)(3) relata que profissionais que atendem pacientes especiais e odontopediatria, tem obtido muito sucesso em acalmar o medo e a ansiedade, criando uma relação de confiança com seu paciente de que tratam. A ciência por detrás desse sucesso apenas recentemente tem sido estudada na literatura psicológica. Dentre os preceitos no tratamento odontológico, o profissional com habilidade, precisa primeiro aprender a reconhecer o perfil psicológico relacionando com a idade cronológica e cognitiva do seu paciente.

LOWEY (1998)(6) argumentou que medidas de comportamento e personalidade são "inexatas e controversas", havendo teorias a respeito do desenvolvimento da personalidade.

KALTENBACH (1999)(5) relatou que o compreender e interpretar a personalidade do paciente seja fundamental em relação de confiança entre o cirurgião-dentista, paciente e família.

3. DESENVOLVIMENTO PSICOLÓGICO DA CRIANÇA AO ADOLESCENTE

3.1. Do Nascimento aos Dois Anos de Idade - os lactentes iniciam seu desenvolvimento psicológico como centro do universo, porém totalmente dependentes dos outros para suas necessidades, não devendo esperar a cooperação dos lactentes na questão odontologia, segundo Anderson, 1998.(2)

3.2 Dois Anos de Idade - neste estágio, querem fazer as coisas sozinhas, preferem brincar solitariamente, não dividindo seu espaço. Habitualmente são muito ligados a seus pais, apresentando medo de estranhos, de sons altos, de movimento brusco e de quedas. Não gostam de ver e tocar as coisas, sendo o consultório odontológico um habitat com muitos objetos que precisam ser mostrados (ANDERSON 1998). (2)

3.3 Três Anos de Idade - são grandes faladores, gostam de ouvir e contar estórias, embora ainda estejam muito ligados aos pais, gostam de agradar e reagem positivamente a qualquer reforço dado (LOWEY 1998).(6)

3.4 Quatro Anos de Idade - são freqüentemente agressivas e tentam liderar impondo a sua vontade sobre os outros. São com freqüência menos cooperativos nas consultas odontológicas do que as de três anos de idade. São curiosas e utilizam suas perguntas para adiar o tratamento, apresentam medo do desconhecido (ANDERSON, 1998).(2)

3.5 Cinco Anos de Idade - normalmente brincam cooperativamente com curiosidade, sendo habitualmente receptiva durante o tratamento . Elogiá-las em seus valores e realizações são muito importantes (KALTENBACH, 1999).(5)

3.6 Seis Anos de Idade - nessa idade o convívio de universo se torna maior, há demandas competitivas, com confinamento ou restrição de atividades. É um período de alterações psicológicas, sendo incansável e não toma decisões facilmente. Pode encarar o tratamento como uma punição para os sentimentos de possessividade em relação ao genitor do sexo oposto. Pode apresentar acessos de raiva temperamental de difícil controle. Seu comportamento pode ser explosivo ou imprevisível (ELIAS, 2002).(4)

3.7 Sete Anos de Idade- seu pensamento é concreto, utilitário e associado a eventos cotidianos. Gostam de contar aos adultos o que estão aprendendo ou fazendo. A interação com o cirurgião-dentista pode ter início em perguntas sobre a escola ou de suas experiências lúdicas. Apresenta ainda ansiedade e medo do tratamento (ELIAS, 2002).(4)

3.8 Adolescente - Freud caracteriza o adolescente como "ansiedade, o peso do orgulho ou a profundidade do desespero, o entusiasmo rapidamente crescente, a total desesperança, a preocupação filosófica e intelectual ardente ou algumas vezes estéril. Respeitando-os como indivíduos completos, buscando conhece-los e compreendê-los, pode-se evitar comportamento rancoroso e não cooperativo de muitos adolescentes (ELIAS, 2002)". (4)

Cabe a nós, darmos ênfase que a idade cronológica por muitas vezes em pacientes especiais foge literalmente da idade mental, assim o cirurgião-dentista deve ter a sensibilidade e compreensão técnica e científica de tentar enquadrar o seu paciente na faixa mais adequada, associando o estado mental e a idade cronológica.

4. FASES DE CONDICIONAMENTO DO PACIENTE

4.1 Consentimento - os responsáveis pelo paciente clinicamente comprometido devem ser esclarecido das metas e obstáculos a serem ultrapassados com o intuito de dar saúde oral ao paciente.

4.2 Aperfeiçoamento de Comunicação

4.2.1 Linguagem e Expressão - um item de suma importância, no qual muitos profissionais a luz do paciente se tornam ridículos e exageram na sua linguagem, exemplo: queridinho, que gracinha, filhinho

4.2.2 Comunicação não Verbal - todos nós comunicamo-nos através de gestos, postura, movimentos, expressão facial, contato físico entre outras formas. Assim, deve-se utilizar o máximo possível esta técnica junto ao paciente, o toque, muitas vezes, vale mais do que a palavra dita.

4.2.3 Controle da Tonalidade da Voz - alterações controladas de volume, tom ou cadência da voz podem influenciar positivamente ou negativamente junto ao estado comportamental do paciente.

4.2.4 Falar - Mostrar - Fazer - uma técnica muito utilizada em odontopediatria e em pacientes especiais. Deve ser adaptada a cada situação comportamental, dependendo de cada momento e condições física do paciente.

5. TÉCNICAS ALTERNATIVAS

5.1 Ludoterapia: a arte de brincar, transferindo seus anseios, vontades, expressões através de brinquedos didáticos e psicológicos.

5.2 Cromoterapia: as cores apresentam influência positiva ou negativa. O cirurgião-dentista que trabalha com pacientes especiais e domina esta técnica apresenta uma grande vantagem sobre os demais.

5.3 Musicoterapia: técnica para auxilia fundamental, no condicionamento desses pacientes, porém lembramos que não devemos realiza-la de forma empírica.

5.4 Hipnose: utilizada para auxiliar junto a pacientes que apresentam compreensão e colaboração, porém com fobias ao tratamento.

5.5 Arte: conceito muito atual, onde pacientes são submetidos a seções de arte plástica (pintura, colagem) momentos antes de sua consulta propriamente dita ao cirurgião-dentista.Há a tentativa de se estabelecer um momento de abstração e relaxamento para no ato do tratamento obtermos um melhor desempenho.

5.6 Restrição Física: técnica de restrição de movimentos voluntários ou involuntários dos pacientes através de mecanismos como: papoose board, pediwrup ou mesmo macri e lençóis com uma série de técnicas preconizadas no mundo inteiro como por exemplo de envelopamento.

5.7 Sedação Oral Consciente: controle comportamental através de drogas no auxilio do tratamento.


Figura 1: Condicionamento com auxilio da Ludoterapia


6. ESTRUTURA DE ATENDIMENTO

A mais utilizada por nós é a interdisciplinaridade agregada a ludoterapia em todas as seções, a técnica falar-mostrar-fazer, cromoterapia e artes, estão sempre presentes em nosso atendimento diário.

Acreditamos ser de suma importância, o condicionamento em um primeiro plano. O inicio do trabalho se dá com aos familiares, onde deverá existir uma interação completa. Após o contato e sensibilização dos responsáveis, é que daremos início, junto ao paciente especial, ao seu tratamento. Desta forma, percebemos uma maior concordância e colaboração com o planejamento odontológico proposto.

Como colaboração aos profissionais, que se interessam pelo assunto em pauta, extraímos este quadro abaixo (Fonte Medline) da Academia Americana de Odontologia (1999)(1), que serve como orientação no seu condicionamento junto ao paciente especial.

Tabela 1. Resumo do protocolo de atendimento estomatológico

Paciente quer Ajudar: Guarde essa máxima em mente

Estabeleça comunicação

Converse ao nível do paciente

Mostre que é seu amigo

Encoraje-o, dê suporte de apoio

Paciente tem Medo Inato, Especialmente do Desconhecido:

Envie informações ao paciente antes da consulta - sala de espera
Estruture a consulta: mostre o que vai ser feito e diga quanto tempo vai demorar
Converse com o paciente de assuntos não odontológicos
Aplique técnicas alternativas
Forneça ao paciente algum controle, permita-o fazer algumas perguntas

Paciente Tímido:

Proceda vagarosamente e fale tranqüilamente
Dê tempo dele responder suas solicitações
Fale-mostre-faça

Paciente Testador:

Tentam buscar seus limites
Seja firme e consistente
Nunca perca a calma

CONCLUSÃO

Quando citamos que nossa margem de pacientes com necessidades especiais, que eram submetidos ao tratamento odontológico sob anestesia geral está em torno de 3%, vemos com satisfação que técnicas já preconizadas e alternativas são de extrema utilidade, pois a princípio todo paciente é cooperativo ou apresenta um potencial de cooperação, cada um a seu nível de compreensão, o cirurgião-dentista que se dedica ao tratamento do paciente especial tende cada vez mais a procurar caminhos alternativos na busca de não fazer o seu paciente dependente da anestesia geral para um tratamento odontológico, a prevenção, a interação profissional paciente-família traz um fator a mais a esses pacientes que por muitos anos foram esquecidos em todos os seus níveis, e a odontologia para pacientes especiais nesses últimos anos vem se firmando como uma especialidade latente e respeitada por todas as equipes interdisciplinares.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. American Academy of Pediatric Dentistry: Standards of care for behavior management. American of Pediatry Dentistry, Chicago, v.5, n.3, p.29-45, 1995

2. ANDERSON, K.O. Psychological preparation for invasive medical and dental procedures. J Behav Med, v 9,n.8, p.76-82, 1998

3. ELIAS, R. Odontologia de Alto Risco - Pacientes Especiais, ed. REVINTER,
Rio de Janeiro, 1995,p.189.

4.________________, Odontologia e os Pacientes Especiais, J Brasil, RJ nov, p.6, 2002

5. KALTENBACH R.F. Psychological aspects of pain. J Dent Pediatric, Houston, USA v 6, n.4,p.67-9,

6. LOWEY G.H. Growl and development of children, ed. 8, Year Book Medical, Chicago, p. 456-79, 1998.

7. MAIA, M.E.; CORRÊA, M.S.; FAZZI. R.: Estratégias de Conduta Clínica e Psicológica em Odontopediatria - RBO, Rio de Janeiro, março /abril - p. 41-4 ,1996

 

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