Sexta, 18 de Setembro de 2020   
Artigo Original

25/12/2004
BOCA SECA:COMO PROCEDER DIANTE DESSE QUADRO CLÍNICO
MOREIRA, Ruth Cavalcanti; PEIXOTO, Thiago; ELIAS, Roberto

BOCA SECA:
COMO PROCEDER DIANTE DESSE QUADRO CLÍNICO
DRYNESS MOUTH: HOW TO CONDUCT IN FRONT OF THAT CLINICAL SQUARE

MOREIRA, Ruth Cavalcanti; PEIXOTO, Thiago; ELIAS, Roberto

RESUMO
A hiposalivação ocorre devido a várias etiologias e acarreta inúmeras conseqüências. Pode estar associada a síndromes, como a de Sjögren, idade, fumo, radioterapia local, aplasia das glândulas salivares, Diabetes Mellitus e ao uso de fármacos. O presente trabalho tem como objetivo revisar os principais sintomas e sinais clínicos assim como seus respectivos tratamentos.
Palavras-chave: xerostomia; hiposalivação; Síndrome de Sjögren.
ABSTRACT
The hyposalivation occur owing of various etiologies and cause many consequences. Can be associate to syndromes as the Sjögren, age, smoke, radiotherapy locale, disturb have the salivar’s glandular, Diabetes Mellitus and the use of pharmaceutics. The present works have the intent to revise the principal’s symptoms and clinical signal as well as theirs treatments respective.
Key words: xerostomia; hyposalivation; Sjogren´s Symdrome

INTRODUÇÃO
A principal função das glândulas salivares é a produção de saliva, cuja produção diária varia de 500 a 1500ml. No seu conteúdo encontramos eletrólitos, minerais, sistemas tamponantes, enzimas e inibidores de enzimas, fatores de crescimento, imunoglobulinas, mucinas e outras proteínas. Devido à produção contínua a saliva atua como agente de limpeza. O sistema de tamponamento mantém os níveis de cálcio e fosfato, prevenindo a desmineralização dental (4). A saliva mantém úmido o meio bucal, auxilia na formação e deglutição do bolo alimentar, auxilia na retenção de prótese e possui atividade antimicrobiana. (7-9) Muitos profissionais da área médico-odontológica utilizam erradamente o termo xerostomia como sinônimo de hiposalivação. A xerostomia representa um sintoma de boca seca ocasionada ou não pela hipofunção glandular. Hiposalivação seria a redução parcial ou total da secreção salivar.
ETIOLOGIAS
A secreção da saliva é regulada pelo sistema nervoso autônomo e está sujeita a estimulação reflexa por causas físicas e psíquicas. (2) Inúmeros são os fatores associados a xerostomia, sendo as mais comuns a aplasia da glândula salivar, fumo, ansiedade, respiração bucal, radioterapia local, síndrome de Sjögren, mal de Parkinson, depressão, Diabetes Mellitus, desidratados em geral, excisão das glândulas salivares, alcoolismo, idade, alteração hormonal e uma grande variedade de medicações devido ao seu efeito colateral. (8)
A redução de fluxo salivar pode estar presente no idoso. O fator idade é de difícil comprovação, pois os mesmos apresentam manifestações sistêmicas e/ou uso regular de medicamentos que alteram o fluxo salivar. (6) Entre esses medicamentos os mais usados seriam os anti-hipertensivos, e em segundo lugar os quimioterápicos e os antidepressivos. Algumas outras drogas como analgésicos, diuréticos, anticolinérgicos, anti-histamínicos e moderadores de apetite também podem reduzir a boca seca.
A síndrome de Sjögren é uma desordem sistêmica auto-imune que tem como umas de suas manifestações clínica a xerostomia. A redução do fluxo salivar deve-se a inflamação e destruição do parênquima glandular por um infiltrado linfoepitelial. (3)
A síndrome da ardência bucal é uma afecção intra-oral dolorosa, caracterizada por queimação da mucosa oral. A sua etiologia é multifatorial, com envolvimento de fatores locais e sistêmicos. (7) Têm sido propostas inúmeras causas, dentre elas a xerostomia, ansiedade, depressão, diabetes do adulto não controlado e hábitos parafuncionais (bruxismo ou apertamento da língua). (1) No tratamento de tumores de cabeça e pescoço é comum a indicação da radioterapia. Este tratamento possui como principais efeitos colaterais a atrofia progressiva e variações fibrosas nas glândulas salivares causando o ressecamento bucal. (1-11) A xerostomia ocorre com freqüência em mulheres no período da menopausa devido às alterações hormonais.
Nos pacientes com Diabetes Mellitus a diminuição do fluxo salivar está relacionada diretamente ao controle glicêmico. Logo quanto maior for esse controle mais próximo estarão os valores normais da saliva. (9)
Pessoas saudáveis com o fluxo salivar normal podem apresentar ressecamento da boca como é o caso do respirador bucal.
SINAIS E SINTOMAS
A xerostomia afeta mais o gênero feminino e está mais presente na população idosa. Um correto diagnóstico é fundamental para o tratamento da boca seca, portanto uma boa anamnese e um exame físico devem ser executados pelo cirurgião dentista. Nesses pacientes, o profissional deve procurar histórias de tratamento ou condições que possam interferir na secreção salivar, tais como medicamentos, alterações sistêmicas e radioterapia em região de cabeça e pescoço. (2)
Durante a anamnese, o paciente com ressecamento da boca relata alteração do paladar, dificuldade de engolir, dificuldade de falar, desconforto oral e quando presente dificuldade de retenção da prótese.
No exame bucal uma série de alterações podem estar presentes. Pacientes que possuem xerostomia não apresentam poças de saliva no assoalho bucal. A saliva encontra-se espessa ou espumante. A mucosa apresenta-se freqüentemente ressecada, a superfície dorsal da língua com fissuras ou avermelhada com atrofia das papilas filiformes. Alguns pacientes ainda podem apresentar queilite angular. A redução da saliva predispõe ao paciente à doenças periodontais, cáries em áreas normalmente resistentes, como ponta de cúspides, bordas incisas e superfícies lisas (5) e infecções oportunistas causadas principalmente pela candida albicans.
A manifestação fúngica está relacionada à redução da limpeza e da atividade antimicrobiana exercida pela saliva.
Pacientes que foram submetidos à radioterapia para tratamento de tumores da cabeça e pescoço, podem apresentar ressecamento bucal, por causa do decréscimo da quantidade e aumento da densidade salivar. Tais alterações podem levar o surgimento de “cárie de radiação”, mucosite, alterações da flora bucal, perda do paladar e osteoradionecrose.
Pacientes com síndrome de ardência bucal apresentam a mucosa bucal normal. A área de ardência é mais freqüente na língua, seguida do palato, alvéolo edentado superior, lábios e área que suporta a prótese inferior.
TRATAMENTO
No tratamento da xerostomia deve-se, primeiro tratar a sua etiologia. Caso a causa não possa ser eliminada, tratamentos paliativos devem ser adotados.
Se a causa for à administração de drogas, alterar as doses ou trocar por um similar com menor potencial xerostômico (sempre com orientação médica).
Nos desidratados em geral, a administração de mais líquidos durante o dia, pode melhorar o quadro de secura bucal.
Mulheres que venham a apresentar o ressecamento da boca durante a menopausa são orientadas a procurar um médico com o intuito de fazer reposição hormonal. Essa medida visa reduzir ou eliminar essa sintomatologia.
Pacientes com Síndrome de Sjögren não possuem tratamento definitivo, somente paliativo. A xerostomia presente nessa condição pode ser minimizada com o uso de salivas artificiais (Orthana, Glandosane e Luborant) ou fármacos como os sialogogos (estimuladores de saliva: prilocarpina).
O uso de sialogogos pode ser utilizado também em pacientes que sofreram radioterapia e desenvolveram a xerostomia. Essa droga é contra-indicada para pacientes com hipertensão, problemas cardiovasculares, úlceras gastrintestinais, alteração da próstata e, principalmente, Mal de Parkinson. Pessoas acometidas pela síndrome da ardência bucal, devem estar conscientes da necessidade de tratamentos prolongados, algumas vezes essencialmente paliativos, e que nem todos os sintomas irão desaparecer. (7) O seu tratamento consiste na eliminação do agente etiológico, contudo a administração de salivas artificiais como medidas paliativas se faz presente para o alivio da ardência.
O desenho da prótese deve ser melhorado em indivíduos edêntulos, para minimizar os traumatismos sobre a mucosa bucal atrófica.
Devido ao risco aumentado da doença cárie, recomenda-se visita regular ao dentista. Aplicações de flúor no consultório previnem a doença, e o uso de clorexidine a 0,12% diminui a formação da placa dental. (8)
Os pacientes devem ser orientados: a modificar a sua dieta, evitar alimentos secos, maciços, condimentares ou ácidos e a ingestão de bebidas alcoólicas. O uso de tabaco é contra-indicado.
CONCLUSÃO
O ressecamento da boca é uma sintomatologia freqüente na prática odontológica. O conhecimento de suas etiologias é fundamental para o seu tratamento. Uma investigação de possíveis alterações sistêmicas, uso de fármacos e sintomatologia são determinantes para a .conduta clínica. Caso a causa não possa ser eliminada, o tratamento paliativo deve ser executado para minimizar o ressecamento da boca.
REFERÊNCIAS RECOMENDADAS

1-BROWN, L.R.; DREIZEN, S.; RIDER, L.J.; JOHNSTON, D.A. The effect of radiation-induced xerostomia on saliva and serum lysozyme and immunoglobulin levels. Nacional Institutes of Health.
2-COELHO, C.M.P.; SOUZA, Y.T.C.S.; DARÉ, A.M.Z.; PEREIRA, A.C.C.I.; CARDOSO, C.M. Aplicações clínicas da xerostomia: abordagens sobre o diagnóstico e tratamento. Revista Assoc. Paul. Cir. Dent.- APCD. São Paulo, v.56, n.4, p.295-298, jul./ago. 2002.
3-DOTTO, S.R.; FERREIRA, R.; ACHUTTI, N.A.; PASQUALI, P.E.; DOTTO, G.N. Síndrome de Sjögren: relato de caso clínico. Passo Fundo. V.5, n.1, p.11-15, jan./jun. 2000.
4-EPSTEIN, J.B.; MEIJI,E.H.V.D.; LUNN,R.; MOORE, P.S. Effects of compliance with fluoride gel application on caries and caries risk in patients after radiation therapy for head and neck cancer. British Columbia Cancer Agency.
5-LUZ, M.A.A.C., BIRMAN, E.G. Cárie em pacientes com hipossalivação: aspectos clínicos, terapêuticos e preventivos. V.8, n.6, nov./dez. 1996.
6- MACIEL, S.M.L. O idoso: uso de medicação e seus reflexos na saúde bucal. Pesq. Brás. Odontoped. Clin. Integr. V.2, n.2/3, mai./dez. 2002.
7- NASRI, C.; TEIXEIRA, M.J.; SIQUEIRA, J.T.T. Estudo clínico sobre as características gerias dos pacientes com queixas de ardência bucal. J. Brás. Oclusão, ATM e dor orofacial. Curitiba, v.2, n.8, p.278-284, out./dez. 2002.
8- NEVILLE; DAMM; ALLEN; BOUQUOT. Patologia Oral & Maxilofacial.
9- NICOLAU, J.; LEITE, M.F.; SIQUEIRA, W.L.; NOGUEIRA, F.N. Saliva na saúde e na doença. Revista da APCD. V.57, n.4, jul./ago. 2003.
10-REICHART, P.A.; PHILIPSEN, H.P. Atlas Colorido de Odontologia-Patologia Bucal. Ed. ArtMed.
11-SASSI, L.M.; MEHL, A.A.; DISSENHA, J.L.; SIMETTE, R.L.; RAMOS, G.H.A.; OLIVEIRA, B.V. Prevenção e tratamento da osteorradionecrose com terapia de oxigenação hiperbárica. Revista Bras. de Cirurgia e Periodontia, Curitiba, v.1, n.2, p.123-128. 2003.








 

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