Quarta, 29 de Janeiro de 2020   
Artigo Original

20/6/2004
CISTO PRIMORDIAL
SODRÉ M B.;VIANA,R.N.; ELIAS,R.; GUITMANN,J.L; FADEL,F.J.C.

No que diz respeito ao termo “Cisto Primordial”, utilizado na abordagem deste artigo, refere-se a um cisto oriundo da degeneração do órgão do esmalte, ocorrendo portanto em lugar de um dente, sem conotação histológica quanto à formação de ceratina. Contudo apresenta-se ao discorrer sobre o tema abordagens de diferentes momentos da literatura e no uso dos termos “Cisto Ceratocisto” e “Cisto Primordial” como sinônimos. Os cistos e tumores de origem Odontogênica constituem um grupo variado de multiformidade de lesões. Estes cistos e tumores originam-se de alguma deformidade do padrão normal da odontogênese. Os cistos que formam-se em alguma fase da odontogênese, podem estar diretamente associados ao desenvolvimento de alguns dos tumores odontogênicos.O cisto de origem odontogênica é definido como uma cavidade patológica revestida por epitélio, contendo material líquido ou semi-sólido. Podendo ainda ser intra-ósseo e de característica calcificante. Os cistos odontogênicos são derivados do epitélio associado ao desenvolvimento do órgão dentário e, podem ocorrer vários tipos destes cistos, dependendo da fase da odontogênese na qual se originam. Estes grupos de cistos foram classificados de acordo com a fase em que se originam e das lesões características, em um sistema de nomenclatura que se originou com a criação de um Centro Internacional de Referência para a Definição e Classificação Histológica dos Tumores Odontogênicos, Cistos dos Maxilares e Lesões Afins, em 1966, pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Esta classificação foi criada com o intuito de levar à discussão dos estudiosos pesquisadores estimulando a disseminação de idéias e conhecimentos e cooperação internacional para a análise da complexidade deste grupo de tumores.Fazendo parte deste sistema de classificação, encontra-se o Cisto Primordial foco central de nossa abordagem neste artigo, que é um dos tipos de cisto odontogênico menos comuns.

Palavras chaves: cisto; primordial, odontogênico

ABSTRACT

The term “Primordial Cist” used in this article refers to a cist sourced from the degeneration of the enamel organ, occurring therefore in lieu of a tooth, without histological connotation with respect of the formation of ceratine. However, we show along the presentation of the theme, various different approaches in different moments of the history and the use of the terms “Ceratocist Cist” and “Primordial Cist” as synonyms.The cists and tumors of odontogenic origin constitute a varied group of multiformity of lesions. These cists and tumors are originated from some deformity of the odontogenesis normal standard. The cists formed in some stage of the odontogenesis may be directly associated to the development of some odontogenic tumors.The cist of odondogenic origin is defined as a pathological cavity coated by an epithelium containing a liquid or semi-solid material. The cist may also be intra-bone and of calcifying nature. The odontogenic cists are derived from the epithelium associated to the development of the dental organ. It may occur various types of cists depending on the stage of the odontogenesis they were originated from.These groups of cists were classified according to the stage where they are originated and to the characteristic lesions. The nomenclature system was sourced with the creation of the International Reference Center for the Definition and Classification of Odontogenic Tumors, Maxillary Cists and Other Lesions, in 1966, by the World Health Organization. The classification was created aiming at putting the subject into discussion among researchers and stimulating the dissemination of ideas, knowledge and international cooperation in the analysis of the complex group of tumors.Being part of this system of classification and being one of the less common types of odontogenic cists, the Primordial Cist is the core of our article.

Keyword: cist; primordial; odontogenic

INTRODUÇÃO


Partindo da classificação histológica escrita por PINDBORG, KRAMER e TORLONI (1971): o Cisto Primordial se desenvolve pela degeneração cística e liquefação do órgão do esmalte, antes de ocorrer a calcificação do esmalte ou da dentina causado por germe dentário. Normalmente encontrado em lugar de um dente, raro e de difícil diagnóstico.

Características Clínicas: O tamanho do cisto varia muito, podendo expandir o osso e deslocar os dentes adjacentes pela pressão. Está associado, ocasionalmente, a um dente decíduo erupcionado, retido. A lesão não é dolorosa a menos que se torne infectada. Raramente apresenta manifestações clínicas óbvias. Forma-se precocemente mas é de difícil diagnóstico, sendo assim descoberto tardiamente ou até mesmo não ser descoberto.

Características Radiográficas: O exame radiográfico revelará uma área radiotransparente em lugar do dente permanente normal. O Cisto Primordial aparece como uma lesão redonda ou ovóide, bem delimitada, que pode mostrar limites escleróticos ou reativos, e que pode ser uni ou multilocular. Pode estar localizado abaixo das raízes dos dentes, entre as raízes dos dentes adjacentes ou perto da crista do rebordo em lugar de um dente congenitamente ausente, particularmente um terceiro molar superior ou inferior. Esta propensão para o envolvimento de um terceiro molar ainda não foi explicada satisfatoriamente.

Características Histológicas: O aspecto microscópico é semelhante ao de alguns dos outros cistos odontogênicos. A parede é composta de feixes paralelos de fibras colágenas de densidade variável. A superfície interna, voltada para a luz, é forrada por uma camada intacta ou interrompida de epitélio pavimentoso estratificado. Em alguns casos, este epitélio não é caracterizado e apresenta uma camada espinhosa muito proeminente com papilas epiteliais alongadas e, às vezes, confluentes, e a presença de uma camada basal que não é proeminente.

Em outros casos, o epitélio pode ter uma camada superficial de ortoceratina, enquanto que a camada espinhosa pode ser relativamente fina ou de espessura moderada. A camada de células basais não é proeminente e, por vezes, encontra-se achatada. Ainda em outros casos, o epitélio está coberto por uma camada de paraceratina e tem aspecto corrugado típico, enquanto que o resto do epitélio tem espessura excepcionalmente uniforme, geralmente de seis a dez células, com uma camada basal extremamente proeminente, com as células dispostas como “paus de cerca” ou “pedras tumulares”, sem formação de papilas epiteliais. Este último tipo representa o Ceratocisto Odontogênico característico, que é aparente em alguns destes cistos primordiais.

Encontra-se, variavelmente, a presença de células de inflamação crônica, principalmente linfócitos e plasmócitos, de mistura com leucócitos polimorfosnucleares, no tecido conjuntivo da zona subepitelial adjacente.

Tratamento: O tratamento do Cisto Primordial consiste na remoção cirúrgica com curetagem completa do osso, a fim de assegurar a remoção total do epitélio, particularmente se houver fragmentação do revestimento. O índice de recidiva é relativamente elevado se o cisto representar um Ceratocisto Odontogênico.



REVISÃO DE LITERATURA


Em meados dos anos 50, patologistas orais, na Europa, introduziram o termo Ceratocisto Odontogênico para designar um cisto com o comportamento clínico e aspectos histológicos específicos, que eles acreditavam se organizar da lâmina dentária.

Posteriormente este conceito foi amplamente aceito e os termos Cisto Primordial e Ceratocisto Odontogênico passaram a ser usados como sinônimos.

PHILIPSEN (1956) foi o mentor da introdução do termo “Ceratocisto Odontogênico”, referindo-se a qualquer cisto dos maxilares que apresentasse formação de ceratina representativa. Sabe-se que outros cistos podem apresentar ceratinização dos seus limitantes epiteliais. Contudo, o ceratocisto possui um padrão de ceratinização peculiar além de características histopatológicas que o distingue dos demais cistos. No tocante a etiologia existe um consenso de que a origem mais provável seja a partir da lâmina dentária ou de seus remanescentes.

De acordo com SOSKOLNE e SHEAR, após uma análise de uma série de 50 Cistos Primordiais, afirmaram que o Cisto Primordial além das formas de origem já citadas, também pode originar-se diretamente de lâmina dentária, e verificaram que todos os cistos primordiais por eles estudados, de acordo com a sua definição de lesão, apresentavam formação de ceratina ou paraceratina pelo epitélio de revestimento, sendo assim, definidos por eles como Ceratocistos Odontogênicos.

No entanto, BRANNON verificou em seu estudo clínico-patológico de 312 casos de Ceratocisto Odontogênico, que apenas 44% dos Cistos Primordiais, segundo sua definição de cisto, eram Ceratocistos Odontogênicos.

Esta disparidade foi explicada em parte por FORSELL e SAINIO, os quais salientaram que a denominação “Cisto Primordial” foi usada por alguns para definir um cisto oriundo da degeneração do órgão do esmalte, e outros para definir um cisto derivado da odontogênese, a lâmina dentária. Sendo este último um cisto invariavelmente com a presença de características histológicas patognomônicas do Ceratocisto Odontogênico, as denominações de Cisto Primordial, com este último sentido, e de Ceratocisto Odontogênico passaram a ser usadas como sinônimos por alguns e causando confusão para muitos.

Evolução do conceito e do significado do termo “Cisto Primordial”: nas classificações de cistos mais antigas, usadas nos EUA o Cisto Primordial foi considerado como sendo originado da degeneração cística do epitélio do órgão do esmalte, antes do desenvolvimento dos tecidos dentinários calcificados. Por esta razão ocorre no lugar de um dente.

A classificação da OMS em 1972, adotou a denominação Cisto Primordial como termo preferido para esta lesão. Contudo, a classificação da OMS de 1992, considera o termo Ceratocisto Odontogênico a denominação preferível. Se há um Cisto Primordial que não é microscopicamente um Ceratocisto Odontogênico, isto deve ser alterado.

Nos estudos da patologia oral e maxilofacial, NEVILE, DAMM, ALLEN e BOUQUOT, um Cisto Primordial, de acordo com antigo significado do termo, quase sempre é um Ceratocisto Odontogênico, depois de estudado no exame microscópico.



CONCLUSÃO:

O Cisto Primordial é um tipo de cisto odontogênico raro, que é originado através da presença de germe dentário. Desenvolvendo-se pela degeneração cística e liquefação do retículo estrelado do órgão do esmalte do dente, antes de ocorrer a calcificação do esmalte ou da dentina. Sendo assim encontrado no lugar de um dente e, não associado a um dente. Podendo ainda, ser originado de um dente supranumerário.

O conceito e o significado do termo Cisto Primordial, no entanto, continuam controvertidos nas visões de alguns autores e se confundem na evolução das classificações e abordagens literárias. Talvez devido há circunstâncias que mostram a dificuldade que, às vezes, envolve o diagnóstico do Cisto Primordial, até pela sua raridade e características de desenvolvimento e origem se cruzarem em uma linha divisória muito próxima ao Cisto Periodontal residual e ao Ceratocisto.

Referência a tal tipo de lesão é quase inexistente na literatura e não há publicações que apresentem um numero de casos significativos.

O diagnóstico de qualquer dos cistos odontogênicos e sua identificação exata quanto a sua classificação dependem de exame microscópico do tecido, juntamente com o estudo cuidadoso dos dados clínicos e radiográficos.

Muitos acreditam que todos os cistos primordiais são ceratocistos odontogênicos, ainda que alguns reconheçam a existência de um Cisto Primordial que não tem característica histológica do ceratocisto. Sendo esta lesão extremamente incomum.







REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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