Quinta, 21 de Setembro de 2017   
Artigo Original

17/3/2009
Atendimento Odontológico Domiciliar
Cláudio Jorge Campos Fernandes
Curso Especialização odontologia Pacientes Necessidaddes Especiais- UVA

Resumo
A evolução da medicina no último século propiciou melhora no tratamento de vários tipos de enfermidades agudas e crônicas o que conseqüentemente proporcionou melhora na qualidade de vida dos pacientes, além do aumento de sua expectativa de vida. Pacientes que antes eram obrigados a ficar internado em ambiente hospitalar devido a necessidade de apoio tecnológico de suporte para manutenção do seu tratamento, com a evolução da tecnologia e propostas alternativas de terapias, já podem ser atendidos fora desse ambiente.
Participando dessa evolução a odontologia cada vez mais se mostra como peça de grande importância, quando se trata da saúde do paciente utilizando uma equipe multidisciplinar, devido a o entendimento pelos médicos de que uma boa saúde começa e se mantém pela boca.
Palavras-chave: Atendimento domiciliar, home Care.

Introdução
Na saúde,tem ocorrido nos últimos anos, um crescente desenvolvimento tecnológico repercutindo no aumento da expectativa de vida, ampliando a sobrevida em casos antes condenados a óbitos. Neste contexto, encontramos crianças, jovens, adultos e idosos que apresentam doenças de alto risco, malformações congênitas, traumas adquiridos ou de doenças anteriormente incompatíveis com avida, dependentes de artefatos tecnológicos e/ou farmacológicos indispensáveis à sobrevivência.
O atendimento domiciliar constitui um conjunto de ações de saúde voltadas ao atendimento ao indivíduo, à família e a comunidade. È um procedimento educativo e assistencial, além de uma atividade utilizada com intuito de subsidiar a intervenção no processo saúde-doença de indivíduos ou no planejamento de ações visando a promoção da saúde da coletividade.(Barros et al, 2006)
Os termos¨Mobile Dental Care¨ ou ¨Mobile Dentistry¨, compreende o atendimento odontológico preventivo ou curativo, realizado fora de um consultório padrão fixo, direcionado as pessoas que não tem acesso ao atendimento padrão(Fonseca,2008, Barros et al,2006). O equipamento móvel deve ser escolhido para o tipo de intervenção almejada, ocasionando eficiência na intervenção e bem estar físico dos profissionais envolvidos(Fonseca, 2008).
O atendimento odontológico domiciliar ( home care) é um modelo em processo de expansão por todo o Brasil e começou a fazer parte das opções dos cuidadores à medida em que a população se conscientizou da preocupação com relação a saúde, a qualidade de vida e de que muitas manifestações bucais podem estar relacionadas com estado de saúde geral das pessoas(Barros et al,2006)
Com o avanço tecnológico na odontologia, se faz possível realizar um tratamento domiciliar com os parâmetros semelhantes a um consultório, com o auxilio de equipamentos modernos e compactos que apresentam a mesma eficiência que um equipamento convencional. Geralmente a necessidade de um atendimento odontológico domiciliar se dá a pacientes com necessidades especiais seja ele um idoso, pacientes hospitalizados ou pacientes acamados, nos quais ocorre a redução percentual da salivação, levando à diminuição da capacidade protetora na formação da cárie e da doença periodontal. È preocupante em pacientes em uso de suporte respiratório com ventilação mecânica e em pacientes neurológicos que apresentam dificuldade à deglutição.(Haddad,2007). A ida ao consultório odontológico por estes pacientes em 60% dos casos o acesso é dificultado por barreiras físicas e o tempo na sala de espera é citado como problemático para os familiares(Fonseca,2008).
Na odontologia o paciente com necessidades especiais é o indivíduo que apresenta determinados desvios dos padrões de normalidade, sendo eles identificáveis ou não, que necessitam de uma atenção, abordagem e atendimento especial, diferenciado por um período de sua vida ou por toda vida(Mugayar,2000). Segundo Van Liemp: ¨O paciente especial é uma unidade muito complexa: sua deficiência afeta determinados setores dessa unidade, repercutindo em outros, e consequentemente na unidade como um todo¨.
A classificação desse grupo é de acordo com a alteração que o mesmo apresenta: deficiência mental, física, síndromes e deformidades craniofaciais, distúrbios comportamentais, sensoriais, transtorno psiquiátrico, doenças sistêmicas crônicas, infectocontagiosas e condições sistêmicas comprometidas e englobam também crianças com dependência tecnológica.
Muitas manifestações bucais estão intimamente relacionada com suas condições sistêmicas, o que se torna de extrema importância um cuidado com sua saúde bucal contribuindo para o tratamento de muitas malformações congênitas corrigidas cirurgicamente ou tratadas clinicamente. O descuido com a higiene bucal influenciam negativamente no prognostico das intervenções cirúrgicas e na progressão dos distúrbios.
Equipe Multidisciplinar
O atendimento domiciliar, inicialmente era realizado por um único profissional da saúde que assumia a total assistência ao paciente. Atualmente a formação de uma equipe multidisciplinar, atua conjuntamente compartilhando a assistência e as responsabilidades do tratamento à este paciente, a fim de que seja possível a reabilitação: social, emocional, intelectual e física(Dias et al,2006, Elias,2008). Para esta reabilitação ocorrer se faz necessário a atuação de especialistas, que com o conhecimento específico em sua área, trocam informações em prol da saúde do paciente, oferecendo prevenção de problemas de de saúde ou de assistência para as doenças já instaladas( Elias,2008). Estes profissionais devem apresentar uma estrutura física e psíquica que propicie o trabalho móvel apresentando uma atitude humanitária e social, interagindo com os familiares e entre si mesmo( Barros et al,2006).
O cirurgião dentista faz parte da equipe interdisciplinar, responsável pela saúde bucal do paciente, a qual é apontada por determinadas repercussões orgânicas, requerendo maiores cuidados. É sabido que esses pacientes por apresentarem níveis baixos de resistência, são sujeitos a disseminação de infecções decorrentes de suas más condições bucais, sendo importante o trabalho preventivo-educacional que o cirurgião dentista vai realizar, ministrando ensinamentos aos cuidadores deste paciente(Fonseca, 2008).
As especialidades ou áreas mais atuantes na equipe interdisciplinar com o cirurgião dentista são: Psicologia, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Terapia ocupacional, Assistência Social, Enfermagem, Medicina e suas especialidades.
O conceito de saúde bucal emitido durante a ll Conferência Nacional de Saúde Bucal em 1993, diz que: ¨saúde bucal é parte integrante da saúde geral do indivíduo e está relacionada com as condições de saneamento básico, alimentação, moradia, trabalho, lazer, liberdade, acesso a posse de terra, aos serviços de saúde e a informação¨(NARVAI & FRAZÃO, 2005).
Os conceitos contemporâneos de saúde sugerem que a saúde pode ser definida em termos físicos, psicológicos e de bem-estar social em relação ao seu estado bucal( WHO,2007). Portanto, saúde bucal se refere ao ato do indivíduo exercer funções como mastigação, deglutição e fonação, apresentando uma estética adequada que permite o relacionamento social sem constrangimento exercendo sua auto-estima(NARVAI & FRAZÃO, 2005).
Uma boa saúde bucal é essencial para qualquer indivíduo, especialmente aquele paciente que apresenta uma saúde geral comprometida agravada pelas doenças crônicas( Benatti e Montenegro, 2008), ou pacientes que apresentam seqüelas com perda parcial ou total da autonomia e independência ( Pascoal, 1999), apresentando dificuldades nas atividades diárias e necessitando de ajuda de responsáveis ou cuidadores ( Dias, 2006).
É importante que esses pacientes tenham um cuidado odontológico regular para assegurar uma melhor qualidade de vida e dependendo do estágio da doença o tratamento pode ser invasivo ou paliativo. O cirurgião-dentista deve realizar uma abordagem que se adapte ao tipo de paciente, para melhorar a convivência com o mesmo, visando aliviar sintomas e auxiliando a familia a compreender o curso da doença e o que esperar do paciente. Deve-se realizar uma detalhada anamnese e um minucioso exame clínico para avaliação da saúde bucal ( Elias, 2008). Disfunções orais como refluxo de sucção e movimentos involuntários, podem dificultar o exame e a higiene bucal. No exame estomatológico, deve-se verificar as condições periodontais, pois é comum nestes pacientes o acúmulo de placa favorecendo o aparecimento de gengivites e periodontites( Elias, 2008).
Os medicamentos utilizados por crianças influenciam a saúde oral, por serem de consistência viscosa e adocicados, ocasionando o aparecimento de cárie; de hiperplasia gengival, ocasionada pelo uso de anticonvulsivante à base de hidantoínato; e os sedativos que diminuem o fluxo salivar ( Andrade, 2007).
Na literatura é relatado que uma saúde bucal insatisfatória pode ser um fator de risco para infecções do trata respiratório inferior, especialmente em pacientes que apresentaram acidente vascular cerebral ( Sumi et al,2002). Para Scannapleco (2001), o acúmulo de patógenos bucais associados à doença periodontal pode aumentar o risco de infecções do trato respiratório em indivíduos susceptíveis. A presença de xerostomia nos pacientes que utilizam medicamentos para controle das doenças crônicas, favorece o crescimento de microorganismos e da placa bacteriana ( Conh e Fulton, 2006). A fim de evitar o agravamento das condições respiratórias, especialmente nos pacientes acamados, o CD deve orientar os familiares e cuidadores na realização de uma adequada higiene bucal e procedimentos de biossegurança, informando ensinamentos sobre escovação, suporte para fio dental, escovas elétricas, jatos intermitentes de água e escovas interdentais(Elias, 2008). Este procedimento básico de higiene pessoal não deve ser negligenciado, pois a ausência ou deficiência de atos mecânicos, possibilita o acúmulo de placa mais espessa, desequilibrando a microbiota bucal e levando a destruição de tecidos moles e duros( Cury, 1999). Esta conduta também tem o objetivo, nos estados iniciais da doença, de produzir condições de saúde bucal estável permitindo o mínimo de problemas quando nos estágios mais avançados da doença, em que o tratamento odontológico se torna impossível. Nos pacientes em estágio mais avançado da doença é recomendável o uso de gaze envolta no dedo indicador, o emprego do flúor para prevenir o desenvolvimento de cárie, escovas pequenas, spray de clorexidina e dieta não cariogênica( Elias, 2008).
A presença do profissional no domicilio o faz ter o conhecimento das condições de habitação, higiene e hábitos de vida, podendo realizar educação em saúde para o paciente e sua família. O planejamento e a execução dos cuidados necessários à promoção de saúde é compartilhada pelo paciente e sua familia, já que neste ambiente menos formal é melhor o relacionamento e com isso a exposição dos problemas e dificuldades no trata bucal do paciente pela familia ou cuidador ( Barros et al,2006).
Considerações Finais
O cirurgião dentista deve confeccionar um formulário de consentimento que transcreva o estado geral e aspecto da cavidade bucal do paciente, o tratamento proposto e as possíveis restrições da odontologia para com o paciente. Tudo deve sre esclarecido, conscientizado e aprovado pelo responsável ou cuidador.
O atendimento domiciliar diminui os riscos de infecções, permite que o paciente mantenha um contato afetivo com a sua família participando do seu cotidiano. Desta maneira traz um resultado positivo para o paciente, pois desta forma ele consegue ter acesso aos serviços prestados pela odontologia tradicional. Este tratamento humanizado, além da maior orientação aos pacientes e sua família quanto a manutenção e promoção de saúde bucal, garante melhor qualidade de vida para este paciente.








Referencias
1- Andrade LHR. Protocolo de atendimento a criança sindrômica. In: Elias R. Odontologia para pacientes com necessidades especiais. Rio de Janeiro: Editora Revinter LTDA;2007. p. 119-130
2- Benatti FG, Montenegro FLB. A intervenção odontológica colaborando na diminuição das afecções respiratórias de idosoa. 07/2008
3- Barros GB, Cruz JPP, Santos AM, Rodrigues AAAO, Bastos KF. Saúde bucal a usuários com Necessidades Especiais. Rev. Saúde. Com 2006;2(2):135-143.
4- Conh JL, Fulton JS. Nursing staff prespectives on oral care for neuroscience patients. J. Neurosci Nurs, v.38,p.22-30, 2006.
5- Cury JA. Controle quiímico da placa dental. In. ABOPREV. Promoção de Saúde Bucal. p.129-140, São Paulo Ed. Artes Médicas.
6- Elias R. Odontologia de Alto Risco Pacientes Especiais. Rio de Janeiro: Ed. Revinter LTDA; 1995.
7- Elias R. Home Care- Nova Modalidade para a odontologia. Rio de Janeiro: Ed. Revinter LTDA; 2008. p. 305-329
8- Fonseca ACC. Análise da odontologia Domiciliar na Áustria em comparação ao cenário mundial. 07/2008.
9- Fourniol AF. Pacientes Especiais e a Odontologia
10- Haddad AS. Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais. São Paulo:Livraria Santos LTDA; 2007. p.703-708.
11- Mugayar, LRF. Pacientes portadores de necessidades especiais. 1ª Ed. São Paulo, Pancast. 2000.
12- Scannapieco FA, How. Potential associatios between chronic respiratory disease: analysis of National Health and Nutrition Survey III. J. Periodontal,v. 72,p.50-6,2001.
13- Sumi Y. Kagami H, Ohtsuka Y. et al. High correlation between the bacterial species in denture plaque and pharyngeal microflora. Gerodontol, v.20, p.84-7,2002.





 

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